sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O triste fim das viúvas da ocupação

PP

 7 novembro 2013

Quando as vítimas de outrora se transformam em agressores bárbaros – As execuções humilhantes e brutais das mulheres que se relacionaram com soldados alemães nas mãos de seus próprios concidadãos Após a liberação dos territórios ocupados pelos alemães dos países europeus, milhares de mulheres que tinham relacionamentos com soldados alemães foram expostas a execuções humilhantes e brutais nas mãos de seus próprios concidadãos. Era a “Épuration Légale” (“purga legal”), a onda de julgamentos oficiais que se seguiu à liberação da França e da queda do Regime de Vichy. Estes julgamentos foram realizados em grande parte entre 1944 e 1949, com ações legais que perduraram por décadas depois.

Ao contrário dos Julgamentos de Nuremberg, a “Épuration Légale” foi conduzida como um assunto interno francês. Aproximadamente 300.000 casos foram investigados, alcançando os mais altos níveis do governo colaboracionista de Vichy. Mais da metade foram encerrados sem acusação. De 1944 a 1951, os tribunais oficiais na França condenaram 6.763 pessoas à morte por traição e outros crimes. Apenas 791 execuções foram efetivamente realizadas. No entanto, 49.723 pessoas foram condenadas a “degradação nacional”, que consistia na perda total de direitos civis.

A campanha para identificar e massacrar os colaboracionistas do regime alemão puniu cerca de 30.000 mulheres com humilhação pública, por suspeita de que tiveram ligações ou porque eram prostitutas e se relacionaram com os alemães.

Algumas vezes, a coisa toda não passava de briga de vizinhas - uma denunciando a outra como acerto de contas pessoais - ou então uma denúncia vazia de participantes realmente ativos, que dessa forma tentavam salvar sua pele desviando a atenção de sua cooperação com as autoridades da ocupação.

O caso é que muitas mulheres que tiveram algum tipo de relacionamento com os soldados e oficiais alemães não tinham culpa, o que elas iriam fazer? Elas eram reféns de um estado ocupado. Mas a ira e a necessidade de encontrar bruxas para caçar não permitia o razoamento, se houvesse um indício qualquer, a coitada tinha sua cabeça raspada e era exposta em público como desgraça da nação. Muitas vezes só raspar a cabeça não bastava, eram despidas, abusadas, desenhavam a suástica nos seus rostos, ou queimavam a marca com ferro em brasa na testa.

Estas mulheres foram reconhecidas como “nacionalmente indignas” e sofreram, além da degradante humilhação em público, penas de seis meses a um ano de prisão, seguida da perda total de direitos civis por mais um ano, quando ainda eram violentadas e insultadas nas ruas. Muitas não suportaram a vergonha daquela situação e sucumbiram cometendo suicídio.

Nisso tudo há ainda um aspecto que permaneceu vergonhosamente nas sombras por décadas: as crianças nascidas de soldados alemães. De acordo com várias estimativas, nasceram ao menos 200 mil dos chamados “filhos da ocupação”, mas estes sofreram menos que as mães, quando o governo limitou-se a proibir nomes alemães e o estudo da língua alemã. Entretanto não foram poucos os casos de “filhos da ocupação” que sofreram algum tipo de ataque e segregação.

A perseguição não se limitou a França, quase todos os países do bloco europeu de aliados fizeram o mesmo. Na Noruega, cinco mil moças que deram à luz filhos de alemães, foram condenadas a um ano e meio de trabalho forçado. Quase todas as crianças foram declararas pelo governo como deficientes mentais e enviadas para uma casa para retardados, onde foram mantidas até os anos 60.

Infelizmente não é tudo, a União Norueguesa para as Crianças da Guerra depois declarou que a “desova nazista”, como chamavam estas crianças, foi usada indiscriminadamente para testar medicamentos não aprovados. Somente em 2005, o parlamento norueguês publicou um pedido formal de desculpas a essas vítimas inocentes e aprovou a compensação para as experiências no valor de 3 milhões de euros. Este valor pode aumentar se a vítima fornecer provas documentais de que tenha sofrido algum tipo de discriminação racial diante do ódio, medo e desconfiança por causa de sua origem.
 






























quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Depoimento de uma mãe que teve sua filha abusada sexualmente


06/Nov/2013 às 15:52

PP

Carta aberta de uma mãe, filha, amiga, mulher. O massacre impune das guerras cotidianas – denúncia de mais um caso de abuso sexual de menor


Jarid Arraes, Questão de Gênero

A carta abaixo, publicada na íntegra, é uma tentativa de utilizar um espaço político para dar voz às mulheres que enfrentam diariamente um realidade de misoginia e cultura do estupro. Como o caso está correndo judicialmente, a autora da carta permanece anônima.

Leia abaixo.
O massacre impune das guerras cotidianas
Denúncia de mais um caso de abuso sexual de menor em Florianópolis, SC

Prólogo
Aí você se pega tentando fazer as coisas de sempre, como se nada tivesse mudado. E vem aquela sensação de que não importa o quanto você se esforce para manter as coisas do mesmo jeito, nada muda o fato de que as coisas mudaram. Não haverá mais paz. E na verdade nunca houve paz, mas agora todas as partes do seu corpo sabem disso. Estamos em guerra.

Denunciando tudo
Quando ouvimos as notícias, temos o péssimo hábito de achar que tudo começa com o abuso sexual, quando essa ação se concretiza e produz uma vítima e um agressor: quando um homem usa de força, estratégia ou coerção para obter prazer e/ou constranger sua vítima. Mas na verdade tudo já começou muito antes: nos olhares e investidas dos homens nas ruas, nas piadas sexistas cotidianamente proferidas, em todo discurso de submissão, fragilidade e passividade da mulher. Em suma, de toda uma diferença construída através da negação de reconhecimento de igualdade e de um discurso de superioridade masculina, excludente em essência.

Mas a parte institucional começou, sim, com um abuso. Aquele macho asqueroso agressor que simplesmente decidiu se aproveitar de um momento a sós com menina e que impôs sua vontade, a constrangiu e a abusou, por fim, certo de que o silêncio seria seu cúmplice.

E o abuso continuou ao fazer a denúncia. Saindo da 6ª DP de Florianópolis, especializada em crimes contra mulheres e adolescentes, tive certeza que esse lugar era uma dessas visões do inferno. Me deparei com uma delegacia da mulher onde os delegados são homens e os policias são homens e as agressões continuam a ser realizadas no próprio espaço que deveria saná-las. Cenas como dois policiais armados ofendendo a mãe de um menor agressor e a ameaçando de prisão caso ela não se calasse na procura de defesa de seu filho, menor, são tidas como cenas cotidianas. No meio da delegacia da mulher e do adolescente, nem mulher nem adolescente parecem tem direitos.

Tivemos que apresentar nossa queixa já no balcão de recepção, sem nenhum acompanhamento psicológico, nenhum copo de água, nenhum “bom dia”. Depois de muita espera, a hora de finalmente fazer a denúncia foi outro momento de constrangimento e abuso. Além do fato de que as denúncias de abuso são feitas a portas abertas em uma sala logo atrás do balcão da recepção, praticamente em público, nota-se um total despreparo dos profissionais. Às argumentações de fechar a porta por ser um fato sigiloso e delicado, a escrivã contrapõe que “ficará muito abafado” e que já tinha feito Boletim de Ocorrência (B.O) de abuso com portas abertas “o dia inteiro”. Em nenhum momento aconteceu um sinal de empatia ao menos pelo fato de a vítima ser uma pré-adolescente. Sem mais delongas, um inquérito: “quando foi a agressão? Qual foi? Onde? Que horas? Tem testemunhas? Tem provas?”
Então eu tenho que explicar que no nosso caso não há provas e não há testemunhas. É de conhecimento geral, mas parece que não para os profissionais da área, que estupro é esse crime covarde que acontece nas surdinas, em quartos, salas ou ruas desertas onde a vítima está indefesa exatamente porque está à mercê do agressor. Porque ela, profissional da área, teria que saber que a maior parte dos abusos acontece a portas fechadas e não, não tem testemunhas. Não tem provas, a não ser a voz das meninas e mulheres que corajosamente se levantam contra agressores que não raro as ameaçam, e levantam suas vozes meio a paredes sujas e portas abertas em delegacias que ninguém se importa e que nas quais nada será feito com essas denúncias. “Não cabe uma medida protetiva no seu caso”, “existem casos piores”, “sorte sua que não foi estupro de verdade”.

Existe estupro de mentira?
O que percebi, o que percebo, é uma propagação dessa ideia infame de que “poderia ter sido pior”. Se não tocou: “poderia ter tocado”. Se tocou: “ poderia ter sido por debaixo da roupa”. Se a violência foi então com as mãos embaixo da roupa: “mas não penetrou”. E se penetrou, mas não bateu, “poderia ter batido”. E se bateu ou espancou, “pelo menos não matou”. E, se matou, talvez ainda escutaríamos que “pelo menos não torturou antes de matar”? Essas minimizações dos efeitos dos abusos visam aparentemente minimizar a dor da vítima, mas, ao fazer isso, agem como atenuantes à agressão e ao agressor. Ou seja, junto a essa ideia do “poderia ter sido pior” vêm a noção implícita de que o agressor poderia ser considerado quase como uma consciência benevolente por não ter usado de todo seu potencial de força contra a vítima.

Claro que todos vão concordar que o fato de alguém vir a morrer pode ser considerado pior do que uma ameaça ou um atentado ao pudor. Mas a questão é que crimes assim não podem ser comparáveis entre si, cada crime é um crime isolado e deve ser encarado como tal. Toda tentativa de minimizar a dor de outra pessoa com esse discurso reverbera em uma atenuação do crime e, consequentemente, do que se espera fazer com o agressor.

O que ficou claro nessa ida à 6ª DP foi que toda a mudança de lei que abrange estupro não tem respaldo na prática. Que a delegacia da mulher só tem “mulher” no nome e nas funções subalternas e que é a grande lógica patriarcal que vigora nesses espaços, réplicas que são do nosso mundo. Que uma delegacia do adolescente não tem preparo algum para lidar com adolescentes sejam eles vítimas ou infratores. Que a delegacia é outro lugar no qual se opera a divisão de classes: porque, além de toda a estrutura de atendimento que lembra os serviços de saúde pública daqui, logo fiquei sabendo que casos sem advogados são postergados por meses. E que da mesma forma que o sistema capitalista se mantém sugando a energia do povo para que esse não reaja, as burocracias institucionais das delegacias sugam a energia das mulheres inviabilizando reação ao patriarcado.

O abuso é um meio do patriarcado se manter, um lembrete de que somos mulheres e de que há uma lógica de fracos e fortes na qual nós seríamos o elo fraco. Existe um modo macho de viver sem medo e atuar no mundo sabendo com seu corpo o silêncio das meninas e mulheres. E por isso essa carta: romper o silêncio é nossa maior arma, e arma não contra casos isolados, mas contra todo o patriarcado. Abuso sexual é um problema político e a resposta tem que ser igualmente política. Precisamos combater o agressor não como um caso individual e nem a representação de algo, mas o que ele é, porque ele é em si todo o patriarcado. E o patriarcado tem que ser combatido.

Epílogo
Tem coisas que acontecem que mudam nossa realidade totalmente. É claro que eu não era nenhuma menininha ingênua, que eu sabia dessa guerra e que eu a sabia no meu corpo, e que eu sempre tive essa empatia pelas meninas-mulheres abusadas de forma intensa. Então porque o susto? Era comigo, já era meu corpo. E mesmo agora podem dizer: não é o seu corpo, mas de sua filha. Mesmo assim eu também fui abusada. E a sensação é essa de que o mundo todo mudou em mim, que acabou, que nunca mais se poderá ter paz.

Mas o que é claro então é que as coisas não mudaram. Elas sempre foram assim. Nunca houve paz. O machismo é uma constante da nossa história na qual as conquistas das minorias são sempre variáveis passíveis de se adequar à constante principal do patriarcado assassino e opressor.

Seguindo essa lógica, a agressão é uma variável do patriarcado, mas a opressão é uma constante que delimita e marca nossa forma de ver e estar no mundo. As mulheres e crianças vivenciam um medo cotidiano e permanente, resultado dessas práticas patriarcais que delegam ao macho o direito de ser e ocupar um mundo que é deles e que impõe às mulheres que saibam se preservar, se defender e se calar enquanto tentam ocupar o mundo pelas beiradas, como se não fosse também nosso.

Nossa luta é pelo direito de ser, estar e ocupar esse mundo que é nosso.

Uma amiga me perguntou se eu acreditava em reabilitação. Desconfio que a parte mais difícil é que eu acho que o agressor é, sim, um psicopata, mas um psicopata que não consegue reconhecer a mulher ou a criança como sujeito. Note-se que eu não disse sujeito de liberdade ou sujeito de direitos, mas simplesmente como sujeito, como pessoa. É assim que os desejos do agressor se sobrepõem aos dos demais, mas também é assim que seus direitos são estendidos sobre os demais. Seus desejos são praticados sobre e na reificação de crianças e mulheres, ao passo que seus direitos são considerados como inalienáveis. Não quero aqui fazer apologia a fascismos. Acredito que educação é a chave, a curto, médio e longo prazo. Mas o que fazer com esses casos? A impunidade produz vítimas a cada minuto, e não temos tempo, nunca tivemos tempo. E se a educação for a resposta, como então educar?

E não: não acontece apenas uma vez. Uma vez proferida uma violência impune, essa violência continuará e continuará. E essa violência continuará simplesmente porque o sistema legal de amparo a mulher é patriarcal e benevolente aos agressores. “Muitos casos, não damos conta”, nos disseram na delegacia. Não se tenta dar conta. O sistema não é falho, é conivente, cúmplice. O sistema responsável pela punição é tão machista e agressor quanto o próprio agressor.

Se já não posso pedir por paz, reclamo ao menos por justiça. Nas recentes efervescências políticas desse ano, uma frase nos muros e gritos me chamou a atenção: “se não há igualdade para os pobres, que não haja paz para os ricos”. Parafraseio aqui: “se não há justiça entre os gêneros, que não haja paz para os agressores”. Estamos em guerra.

Carta aberta de uma mãe, filha, amiga, mulher, feminista, anônima.
Florianópolis, 2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Estupro no Brasil cresce 18% e supera número de homicídios dolosos

unisinos

Dados do 7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública registraram 50,6 mil casos, o correspondente a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. Em 2011, a taxa era de 22,1.

A reportagem é de Fernanda Cruz e publicada pela Agência Brasil, 04-11-2013.

O número de estupros no Brasil subiu 18,17% em 2012, na comparação com o ano anterior, aponta o 7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em todo o país, foram registrados 50,6 mil casos, o correspondente a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. Em 2011, a taxa era de 22,1.

Os estados com as maiores taxas de estupro para cada 100 mil habitantes foram Roraima, Rondônia e Santa Catarina. As menores taxas, por sua vez, ocorreram na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em Minas Gerais. O relatório completo será divulgado amanhã (5), em São Paulo.

Segundo dados do documento, o total de estupros (50,6 mil casos) superou o de homicídios dolosos (com intenção de matar) no país. Foram registradas 47,1 mil mortes por homicídio doloso em 2012, subindo de 22,5 mortes por grupo de 100 mil habitantes em 2011, para 24,3 no ano passado, uma alta de 7,8%.

Alagoas continua liderando o ranking de homicídios dolosos com 58,2 mortes por grupo de 100 mil habitantes, mas houve redução da taxa. Em relação a 2011, o índice recuou 21,9%, ou seja, passou de 2,3 mil mortes em 2011, para 1,8 mil mortes em 2012. No grupo de estados com as menores taxas de morte por grupo de 100 mil habitantes estão Amapá (9,9), Santa Catarina (11,3), São Paulo (11,5), Roraima (13,2), Mato Grosso do Sul (14,9), Piauí (15,2) e Rio Grande do Sul (18,4).

A população carcerária cresceu 9,39%. Em 2011, havia 471,25 mil presos no país, número que saltou para 515,5 mil em 2012. Já as vagas nos presídios cresceram menos – eram 295,43 mil em 2011 e passaram a 303,7 mil no ano passado, aumento de 2,82%.

Em média, o Brasil tem 1,7 detento por vaga. Boa parte desses presos (38%) são provisórios, com casos ainda não julgados. Em sete estados, mais de 50% da população carcerária ainda aguardam julgamento: Mato Grosso (53,6%), Maranhão (55,1%), Minas Gerais (58,1%), Sergipe (62,5%), Pernambuco (62,6%), Amazonas (62,7%) e Piauí (65,7%).

O gasto total com segurança pública totalizou R$ 61,1 bilhões no ano passado, um incremento de 15,83% em relação ao ano anterior. Investimentos em inteligência e informação alcançaram R$ 880 milhões, ante R$ 17,5 bilhões em policiamento e R$ 2,6 bilhões em defesa civil. São Paulo foi o estado que destinou mais recursos ao setor: R$ 14,37 bilhões, dos quais R$ 5,73 bilhões foram usados apenas com o pagamento de aposentadorias.

A Mulher na Idade Média


Patrícia Barboza da Silva
Licenciada pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG.
Colunista Brasil Escola

A participação e o lugar da mulher na História foram negligenciados pelos historiadores por muito tempo. Elas ficaram à sombra de um mundo dominado pelo gênero masculino.

Ao pensarmos o mundo medieval e o papel desta mulher, esse quadro de exclusão se agrava ainda mais, pois além do silêncio que encontramos nas fontes, os textos que muito raramente tratam o mundo feminino estão impregnados pela aversão dos religiosos da época por elas.

Na Idade Média, a maioria das idéias e de conceitos eram elaborados pelos Escolásticos. Tudo o que sabemos sobre as mulheres deste período saiu das mãos de homens da Igreja, pessoas que deveriam viver completamente longe delas. Muitos clérigos consideravam-nas misteriosas, não compreendiam, por exemplo, como elas geravam a vida e curavam doenças utilizando ervas.

A mulher para os clérigos era considerada um ser muito próximo da carne e dos sentidos e, por isso, uma pecadora em potencial.

Afinal, todas elas descendiam de Eva, a culpada pela queda do gênero humano.

(1)Bem ao gosto de Paulo e suas epístoloas - I Timóteo 2
11 - A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.
12 - Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.
13 - Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.
14 - E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.
15 - Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, na caridade e na santificação.

No inicio da Idade Média, a principal preocupação com as mulheres era mantê-las virgens e afastar os clérigos desses seres demoníacos que personificaram a tentação. Dessa forma, a maior parte das autoridades eclesiásticas desse período via a mulher como portadora e disseminadora do mal.

Isso as tornava má por natureza e atraída pelo vício.

A partir do século XI com a instituição do casamento pela Igreja, a maternidade e o papel da boa esposa passaram a serem exaltados.

Criou-se uma forma de salvação feminina a partir basicamente de três modelos femininos: Eva (a pecadora), Maria (o modelo de perfeição e santidade) e Maria Madalena (a pecadora arrependida).

O matrimonio vinha para saciar e controlar as pulsões femininas. No casamento a mulher estaria restrita a um só parceiro, que tinha a função de dominá-la, de educá-la e de fazer com que tivesse uma vida pura e casta.

Eram consideradas como a causa e objeto do pecado, era portadora de entrada para o demônio. Só não eram consideradas objetos do pecado quando eram virgens, mães ou esposas, ou quando viviam no convento. Quando eram esposas não podiam vender nem hipotecar seus bens sem a autoridade e consentimento do seu marido.

As camponesas trabalhavam muito: cuidavam das crianças, fiavam a lã, teciam e ajudavam a cultivar as terras. As mulheres com um nível social mais alto tinham uma rotina igualmente atribulada, pois administravam a gleba familiar quando seus maridos estavam fora, em luta contra os vizinhos ou em cruzadas à Terra Santa. Atendimento aos doentes, a educação das crianças também eram tarefas femininas.

Essa falta de conhecimento da natureza feminina causava medo aos homens. Os religiosos se apoiavam no Pecado Original de Eva para ligá-la à corporeidade e inferiorizá-la. Isso porque, conforme o texto bíblico, Eva foi criada da costela de Adão, sendo, por isso, dominada pelos sentidos e os desejos da carne. Devido a essa visão, acreditava-se que ela foi criada coma única função de procriar.

Na idéia do Pecado Original encontramos uma outra característica criticada nas mulheres pelos clérigos, a tagarelice. Afinal foi por um pedido de Eva que Adão aceitou o fruto proibido, e pó isso, foi considerada uma enganadora.

Maria foi a redentora de Eva, que veio ao mundo com a missão de liberar Eva da maldição da Queda. Desenvolveu-se então a idéia de Maria era a mãe da humanidade, de todos os homens e mulheres que viviam na graça de Deus, enquanto Eva era a mãe de todos que morrem pela natureza. O culto a Maria se baseava em quatro pilares: a maternidade divina, a virgindade, a imaculada concepção e a assunção.

Por isso, as mulheres eram encorajadas a se manterem castas até o casamento, se a sua opção de vida fosse o matrimônio.

Porém, a melhor forma de seguir o exemplo de Maria era permanecer virgem e tornar-se esposa de Cristo, com base na idéia recorrente de que Maria era “irmã, esposa e serva do Senhor”.

Eva simbolizava as mulheres reais, e Maria um ideal de santidade que deveria ser seguido por todas as mulheres para alcançar a graça divina, caminho para a salvação.

Mas como Maria era um ideal a ser seguido, inatingível pelas mulheres comuns, surge à figura de Maria Madalena, a pecadora arrependida, demonstrando que a salvação é possível para todos que abandonam uma vida cheia de pecados.

Com essa imagem de mulher pecadora que se arrepende e segue o mestre até o calvário, Maria Madalena veio demonstrar que todos os pecadores são capazes de chegar a Deus.

A partir daí foi concebido as mulheres, assim como a pecadora o direito ao arrependimento, demonstrado pela prostração, humilhação e lagrimas, em oposição à tagarelice de Eva, que levou toda a humanidade ao pecado.

Por isso, a pregação feminina deveria ser sem palavras, feita apenas pela mortificação corporal.

Paulo em I Coríntios
Os homens são "a imagem e glória de Deus", mas não as mulheres; elas são "a glória do varão." Paulo conclui que as mulheres são feitas dos e para os homens. 11:7-9

Paulo ordena que as mulheres devem estar caladas na igreja e serem obedientes aos homens. Ele diz mais adiante que "se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja." 14:34-35

Todo este anti-feminismo tinha como objetivos básicos: afastar os clérigos das mulheres, institucionalizar o casamento e a moral cristã, moldada através da criação de um segundo modelo feminino a Virgem Maria.

Os três modelos difundidos por toda a Idade Média (Eva, Maria e Madalena) deixam claro o papel civilizador e moralizador desempenhado pela Igreja Católica ao longo de aproximadamente mil anos de formação da sociedade ocidental.

A própria passagem da visão de corporeidade e danação feminina, pautada no modelo de Eva, vista como aliada do demônio. Esse estado de maldição foi amenizado com o culto à Virgem Maria, que trouxe consigo a reconciliação entre a humanidade e Deus, contudo, essa reconciliação ainda restritiva, pois somente aqueles que vivessem na graça divina alcançariam à salvação.

Com Maria Madalena se estende a possibilidade de salvação a todos que tinham caído no erro, mas foram capazes de se arrepender.

Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos, como a luxuria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. Todos esses atributos apareciam nela como exemplo. E como forma de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria Madalena, a prostituta arrependida mais conhecida e que se submeteu aos homens e a Igreja.

Fica claro assim que não é possível analisar o que as mulheres pensam de si próprias: o que nos foi transmitido pelas fontes são modelos ideais e regras de comportamento que nem sempre são positivos.

Essa concepção de mulher, que foi construída através dos séculos, é anterior mesmo ao cristianismo. Foi assegurada por ele e se deu porque permitiu a manutenção dos homens no poder, fornecia uma segurança baseada na distancia ao clero celibatário, legitimou a submissão da ordem estabelecida pelos homens. Esta construção começou apenas a ruir, mas os alicerces ainda estão bem fincados na nossa sociedade.



REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:
- DUBY, G; PERROT, M (dir). História das mulheres: a Idade Média. Porto; Afrontamento, 1990.
- RAMON, Llull. Missoginia e santidade na Baixa Idade Média: os três modelos femininos no livro das maravilhas. Instituto Brasileiro de Filosofia e ciência Raimundo Líilio. 2002.

domingo, 27 de outubro de 2013

Polanski e a menina: uma dura denúncia da mídia e da máquina do judiciário

cartamaior

Samantha Geimer, estuprada por Roman Polanski, conta em seu livro que seu sofrimento foi ampliado pelo aproveitamento do caso pela mídia e pelo judiciário.


Ladislau Dowbor Somos todos fãs de Roman Polanski (O bebê de Rosemary, Chinatown, O pianista), nos deu muita felicidade com os seus filmes. Como conciliar esta simpatia com a visão de um quarentão que estuprou uma garota de 13 anos? Claro, porque todos também se lembram de Polanski por este lado mais escuro, em particular porque tivemos algumas décadas de noticiário internacional e nacional, em todas as mídias, sobre o “caso”. Com que gosto a mídia internacional e o sistema judiciário americano ficaram se lambuzando, décadas a fio, neste assunto predileto de uma boa parte da humanidade, que é de saber quem faz o que com os buraquinhos de quem. Quando se junta fama, então, ninguém resiste. Penetrar na intimidade dos famosos vende bem.

Quase quarenta anos depois dos fatos, Samantha Geimer, a garotinha, decidiu escrever um livro (nota) não para pegar carona na fama que lhe granjeou o caso, mas para denunciar a imensa indústria da notícia, a perversa articulação da pompa do judiciário com a mídia indignada, num quadro ideal e lucrativo: poder falar de detalhes sexuais com o peito estufado de ética ofendida.

Comentários sobre o livro são numerosos, tenta-se extrair ainda algumas gotas do assunto. Alguns ainda declaram de forma espalhafatosa que ela “perdoa” o estupro, buscando gerar notícia. Mas o que temos aqui é diferente. Samantha se calou durante quarenta anos, tentando se esconder da mórbida curiosidade mundial sobre como foi sentir a penetração anal de um pênis tão famoso. Hoje, casada, com filhos, cinquentona, relata o drama de uma pessoa marcada aos 13 anos para sempre por este fato.

Ao constatar o teatro jurídico em que se transformou o seu processo, por “sexo não-consensual”, já que não houve violência, e frente a um juiz que não hesitava em consultar amigos jornalistas para saber como achavam que a opinião pública receberia uma pena mais pesada ou mais leve que ele impusesse ao réu, Polanski fugiu dos Estados Unidos e se refugiou na França. Com isso, o processo continuou à revelia, com pedidos de extradição, uma detenção para averiguações na Suíça, e a cada pequeno fato jurídico manchetes mundiais indignadas sobre o cineasta famoso, contra ou a favor, mas sempre manchetes.

E, a cada manchete, voltavam os jornalistas a vigiar a casa da Samantha, telefonar centenas de vezes inclusive para o seu emprego, colocando-o em cheque.  Nem os filhos escaparam, emboscados em saídas da escola ou da própria casa. Na rua frente à residência, vans estacionadas com vidros pintados, com filmadoras em permanência focadas nas janelas, na porta de entrada. Na ausência de noticias, inventaram-se entrevistas, declarações, tudo para alimentar a novela. Nunca a deixaram ter uma vida familiar e profissional tranquila. Samantha não poupa críticas. Ela era vítima, criança, tinha de ter a sua identidade protegida, ter direito a uma vida que lhe permitisse se reequilibrar, voltar à normalidade, sem tanta perseguição.

 Do lado do judiciário, o comportamento não foi melhor. Na noite do estupro, Samantha contou para um ex-namorado, a irmã ouviu a conversa, contou para os pais, que chamaram um advogado, que chamou a polícia, originando-se uma denúncia formal, o que levaria a garota, que queria esquecer o assunto, a ser obrigada a repetir para dezenas de autoridades judiciais os detalhes do caso, se ele a forçou, como foi o diálogo, o que bebeu e assim por diante. E naturalmente as penetrações anais com instrumentos para coleta de material, para verificar a existência de esperma. E não tardaria, naturalmente, o vazamento à imprensa do que tinham sido deposições cobertas pelo sigilo judicial. Verdade que o juiz encarregado do caso, e que fez a sua fama nas costas dela e de Polanski, terminou completamente desqualificado. Hoje falecido, sobrou-lhe a fama e imagem de falso moralismo e de péssimo juiz.

No livro, em nenhum momento a autora perdoa o fato Polanski ter se aproveitado, e deixa isto bem claro em várias passagens. Foi estupro, ponto. Como escreve, “o perdão foi para a minha paz de espírito; tinha pouco a ver com ele” (p.228). Mas o eixo central que ela deixa claro em toda extensão do livro é que o aproveitamento do caso pela mídia e pelo judiciário gerou sofrimento para ela sem comum medida com o que tinha sofrido com o estupro. E mostra e afirma igualmente que o sofrimento, exílio, prisões e perseguições que Polanski sofreu também foram sem comum medida com o que ele fez. Samantha escreve com raiva sobre famosos comentaristas de TV, em programas de grande audiência, apelando para que o público se solidarize com a “pobre menina”. Mais lucro e pontos de audiência em nome da ética.

A máquina é infernal. Os advogados de defesa do Polanski foram naturalmente levados a destruir a imagem de menina abusada por um adulto, jogando aos quatro ventos uma relação sexual que tinha tido com o namorado, como prova de que não era inocente. E construíram uma imagem da mãe, como piranha que ofereceu a filha para ganhar espaço na indústria do cinema em Hollywood. Os advogados de acusação buscaram naturalmente fazer o semelhante com Polanski. A opinião pública se dividiu entre os que se solidarizaram com Polanski contra a garotinha perversa e a mãe piranha, ou os que navegaram na defesa da pobre menina inocente e da mãe enganada.

O interessante mesmo, é que ninguém deu a mínima para a preservação da intimidade e da vida da vítima, nem para uma justiça discreta e eficiente que punisse o que foi um crime. O casamento da grande mídia comercial com um sistema judiciário perverso, no caso, moeu a vida de duas pessoas que mereciam melhor. Nada melhor que a palavra da própria Samantha: “A razão de ser da justiça não é o entretenimento ou enriquecimento de funcionários públicos, comentaristas e corporações da mídia. Eu não acredito que a punição e o espetáculo possam substituir a justiça.”(P.242)

Nota
Samantha Geimer – The Girl: a life in the shadow of Roman Polanski – Atria Books, New York, 201; lançado no Brasil como A Menina – uma vida à sombra de Roman Polanski

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A PLC 5555 e os Fatos Reais

Minha amiga Patty escreveu (Leiam aqui) essa semana sobre a PL555 que fala sobre a "... facilidade do compartilhamento de vídeos e fotos na internet propiciou o surgimento de uma nova modalidade de violência de gênero: a divulgação de imagens íntimas de mulheres com intuito difamatório. O PLC 5555 - 2013 pretende tornar esse ato de violência (e de traição) um tipo de violência doméstica enquadrada na lei Maria da Penha. Faz sentido. O ato é predominantemente cometido por companheiro ou ex, é até meio óbvio que se trata de violência doméstica."

A reação dos homens (sic) lá no site Votaweb foi revelador
abaixo coloco os prints das votações

Neste print, é possível notar que duma amostra de 4274 homens que votaram, 67% deles são contra a lei....


Votos dos homens










Só que a maioria das mulheres é a favor. Das 1736 que votaram, 86% são favoráveis.

Votos das mulheres

É evidente que há recorte por gênero nesse tipo de crime, visto que é praticado quase que exclusivamente por homens e contra mulheres. Os criminosos sabem que a sexualidade feminina ainda é controlada em nossa sociedade e se utilizam disso para agredir mulheres num ato de extrema misoginia, escreve Patty.


Os comentários dos rapazes tbm são no mínimo intrigantes, se sentem vulneráveis tadinhos, desprezados, sem proteção alguma...



Mas péra lá - ele fala de estupro e coloca link de abuso de crianças denunciados pelas mães? - realmente argumento zero onde pretende colocar todas as mulheres como mentirosas em potencial, mas enfim, na falta de coisa melhor é assim mesmo que se faz, apela-se para a mentira, é sabido que uma ínfima parte das denuncias de estupros é mentirosa...

Ah! como eles são pobres e infelizes, não há justiça para os homens, basta denúncia de uma mulher malvada e lá vão elas para o xilindró com a vida arrasada, como sofrem os coitadinhos ....


O cidadão nem entendeu a proposta da PL, mas enfim , isso acontece com FREQUÊNCIA...


Felizmente nem todos tem a mesma opinião:



Que descreve exatamente o que ocorre, e vejamos então um fato recente, que demonstra como a nossa sociedade está ainda na era Vitoriana, e é especialmente cruel com as mulheres.



 23/Oct/2013 às 15:55

Garota que teve vídeos íntimos divulgados desabafa: "fiz por amor"


'Não me arrependo porque fiz por amor', diz garota sobre vídeo de sexo. Jovem de 19 anos teve imagens íntimas divulgadas nas redes sociais. Em entrevista, ela desabafa: 'Queria ter minha vida de volta'

A estudante de 19 anos que teve vídeos íntimos divulgados em um aplicativo de celular e nas redes sociais diz que sua vida “virou um inferno”. Parou de estudar e de trabalhar desde que o caso ganhou repercussão, no início do mês. Ela só sai de casa para conversar com advogados sobre o processo que move contra o suspeito de divulgar as imagens, com quem a jovem diz ter se relacionado por três anos. “Não me arrependo porque fiz [o vídeo] por amor, com uma pessoa que eu amava e em quem eu confiava. Só que isso não deveria ter sido mostrado para ninguém”, disse a jovem, em entrevista à TV Anhanguera e ao portal G1.

Abalada e com o visual diferente, para não ser reconhecida nas ruas, ela conta que está há praticamente 20 dias sem sair de casa. A estudante, que era vendedora em uma loja de roupas, resolveu falar publicamente sobre o caso, que ela considerou “humilhante”, porque, segundo ela, está sendo condenada por muitas pessoas que não conhecem toda a história.

“Eu não cometi nenhum crime. Mas pessoas me ofendem virtualmente e moralmente. Muita gente me chamou de vadia, prostituta. Um homem chegou a me mandar uma mensagem falando que viria a Goiânia no final de semana e que me pagava R$ 10 mil para sair com ele”, afirma.

A situação chegou ao ponto de influenciar as colegas de trabalho. “Chegavam na loja e ofereciam programa [sexual] pra elas”. Ela foi afastada do trabalho até que a situação se acalmasse. No entanto, a vendedora não sabe se voltará. “Gosto muito de trabalhar lá. Mas não sei quando conseguirei voltar”.

(é um linchamento moral impiedoso e em massa - é assim que a nossa sociedade machista age - mulher não pode fazer sexo, gostar de sexo que é imediatamente atacada de todas as formas)

O curso de design de interiores em uma escola particular de Goiânia também foi abandonado. “Meus professores e meus colegas conhecem minha índole. Eles estão me ajudando e estou recebendo as aulas por internet. Não vou parar de estudar”.

A vendedora ressalta que vai ser difícil retomar sua rotina: “Queria ter minha vida de volta. Eu morri em vida. Vai ser um trauma que eu vou levar para a vida toda”.

Ela registrou um boletim de ocorrência no último dia 3. A Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam), em Goiânia, está investigando o caso, que ganhou grande repercussão na internet. “Acho que nem ele [ suspeito] imaginava que fosse tomar essa proporção. Não tem como controlar e estipular quantas pessoas viram. Não tem como pegar o celular de todo mundo e apagar”, disse. Ela pede que as pessoas denunciem o link do vídeo para que as imagens sejam retiradas da web.

Além do apoio de familiares e amigos, a estudante afirma que as redes sociais têm ajudado a “erguer a cabeça”. “Criaram páginas de apoio. São mais de 35 mil pessoas me dando força, enviando mensagens, até gente de outros países. Inclusive, outras pessoas que passaram por situação parecida dão o seu depoimento. Do mesmo jeito que tem gente me criticando, tem gente me apoiando”.

Vídeos

Nos vídeos divulgados em mensagens de celular e na web, é possível ver a estudante em atos sexuais. O caso ganhou repercussão e virou meme [termo usado para frases, imagens e vídeos que se disseminam na internet de forma viral] nas redes sociais.

As gravações se propagaram rapidamente pelo aplicativo de celular. Em um dos vídeos, a jovem aparece fazendo um sinal de ‘OK’. O símbolo virou piada nas redes, com montagens de políticos. Fotos de celebridades fazendo o sinal de OK também começaram a ser usadas pelos internautas. No entanto, algumas imagens teriam sido tiradas antes da polêmica e não se referem ao caso.

A estudante conta que ficou sabendo do vídeo por uma amiga, no dia 3 de outubro, enquanto trabalhava. “A primeira coisa que eu fiz foi ligar pra ele [suspeito]. Ele negou e disse que ia me ajudar a descobrir quem foi”.

No entanto, para a estudante, não há dúvida de que foi o ex quem divulgou, pois há anos era a única pessoa com quem se relacionava e com quem já tinha gravado vídeos íntimos. “As imagens ficavam dentro de uma pasta no celular, que fica dentro de outra. Para entrar nas duas é preciso de senha que só ele sabe”, ressalta.

A garota lembra que o vídeo já tinha se espalhado quando ela teve conhecimento: “Eu só chorava”. Ela afirma que no dia seguinte procurou a delegacia para registrar a ocorrência.

“Meu celular resetava de tantas ligações. Meu Whatsapp [aplicativo de celular para envio de mensagem] parecia uma calculadora, não parava de somar, foram mais de 4 mil mensagens de desconhecidos com DDD do país inteiro. Não respondi ninguém. Também tive que excluir minha conta no Facebook”, declara a estudante.

Punição

Apesar de um inquérito policial estar em andamento, a jovem acredita que o suspeito de divulgar as imagens não será punido. “Não tem punição para este tipo de crime, não tem uma lei que enquadre ele. Ele até pode ser considerado culpado, mas não vai ficar preso. Ele nunca vai conseguir pagar pelo mal que me fez”.

Ao prestar depoimento, o suspeito negou as acusações. A Polícia Civil ainda ouve testemunhas do caso. A delegada responsável pelas investigações, Ana Elisa Gomes Martins, não quis divulgar o conteúdo dos depoimentos “para não atrapalhar as investigações”. Também é feita uma perícia no celular da estudante.

Para a estudante, além de uma legislação sobre crimes virtuais, é preciso criar uma delegacia especializada. “O assunto é novo. Peritos e policiais não são especializados neste tipo de análise”, afirma a jovem.

Paula Resende, com TV Anhanguera e G1





sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Como criar um filho gentil com tanta violência masculina contra mulheres?



17/Oct/2013 às 14:34

PP


"A ideia de ter um filho me assustou". Se a violência masculina é a maior ameaça às mulheres, como criar um filho gentil?


Por Christopher Zumski Finke, original em Yes! Magazine. Tradução de Isadora Otoni.

A ideia de ter um filho me assustou: Que tipo de homem ele se tornará quando crescer? Confira abaixo o que eu aprendi sobre como criar um homem com compaixão

Minha mulher e eu tivemos Rhodes, nosso primeiro filho, há quatro meses. Isso é o que eu mais me lembro daquela primeira semana: o cheiro de sua pele e sua respiração quando ele dormia no meu colo em nossa cama – pequeno, quentinho, e frágil, como um ovo. Eu respirava o cheiro da vida mais nova que já encontrei enquanto ele dormia.

 O autor do artigo com seu filho, Rhodes, em casa 
(Arquivo pessoal de Christopher Zumski Finke)

Ele não era pequeno demais, mesmo assim eu ficava maravilhado por como esses novos seres humanos chegavam tão minúsculos. Nós, a criatura mais dominante da Terra, começamos a vida tão desamparados, e vermelhos, e bonitos. Sabia, enquanto ele descansava apertado contra meu coração, que faria qualquer coisa para protegê-lo, amá-lo, e apresentá-lo ao mundo.

Mês passado, quarto homens na Índia foram sentenciados a morte por estuprar e matar com tanta brutalidade que quase não acreditei. Na semana anterior, quatro jogadores de futebol americano da Universidade Vanderbilt foram acusados de estuprar uma mulher inconsciente (algo muito parecido como os eventos do último ano em Steubenville, Ohio). E durante a primavera anterior, pouco antes de Rhodes nascer, Ariel Castro foi preso em Cleveland por aprisionar três mulheres – sequestrada quando jovens – em sua casa durante dez anos.

Essas e outras histórias constantemente enchem nossas redes sociais, programas de tevê, jornais, mídias sociais, blogues… É quase impossível evitar histórias de violência, estupro, e dominação. Viver decentemente já é difícil suficiente sozinhos, e agora preciso criar um filho corretamente em um mundo que é, em parte, caracterizado pela violência masculina.

Louis CK resume isso melhor: “Não existe ameaça maior às mulheres do que os homens. Nós somos o número um em ameaça às mulheres. Globalmente e historicamente, nós somos o número um em danos e lesões às mulheres”. E eu me preocupo que ele esteja certo.

Agora que eu sou um pai, me deparo com essa questão constantemente: Como criar um filho com compaixão e dignidade? Um homem que respeita mulheres?

 

Menino ou menina?

No começo da gravidez, minha mulher e eu discutimos se preferíamos criar um menino ou uma menina. Isso estava totalmente fora do nosso controle, mas a conversa mexeu comigo: menino ou menina? Nós criamos um mundo de coisas belas assim como coisas terríveis. Eu submeteria um menino ou uma menina a isso?

Enquanto esperava nossa criança, minha preocupação quanto às notícias de violência sexual atingiram novos patamares, e influenciaram o que pensava sobre criar um menino ou uma menina.

Uma menina, o primeiro pensamento que tive, poderia estar protegida. Me preocupei com sua segurança, mas pensei que poderia protegê-la das ameaças domésticas contra mulheres.

Mas um menino, isso realmente me assustou. Meninos são as ameaças domésticas contra mulheres. Se eu tivesse um menino, nós deveríamos criar um homem. E que tipo de homem ele seria?


Tenho dificuldades imaginando meu filho como qualquer outra pessoa diferente da criança inocente que ele é hoje. Minha hipótese é essa: Eu serei um bom pai e ele será um bom garoto. Mas eu não posso ver o futuro. Eu o amo e quero que ele ame aos outros, quero que ele seja gentil, seja responsável por suas ações, e trate as outras pessoas com respeito. Eu quero que ele aprenda com o homem que escolheu esse comportamento, e não o poder e abuso.

 

Homens como Pacificadores

“Isso é endêmico.” Esse é Ed Heisler, diretor executivo da Homens como Pacificadores, falando sobre as estatísticas de violência sexual e abuso doméstico.

“Essa é o ar social que os jovens estão respirando enquanto crescem”, ele me disse. “A mídia, o ambiente esportista, o jeans, os adultos que vendem jeans, os pais, as professoras que temos nas escolas, os líderes religiosos – todos criam um ambiente que normaliza a dominação e o controle do homem. Ele escolheu a palavra certa: endêmico. “É assim há algum tempo e permanecerá assim até que algo no ambiente social mude.”

A entidade Men as Peacemakers (Homens como Pacificadores, em tradução livre) foi fundada em Duluth, após a comunidade se chocar com uma série de assassinatos cometidos por homens nos anos de 1990. Quando os cidadãos se reuniram para discutir o combate à violência em sua cidade, a maioria presente era de mulheres. Isso preocupou alguns dos homens, que convocaram um retiro de 55 homens da área para discutir seus papéis e suas responsabilidades para diminuir a violência. Uma das iniciativas que nasceu do encontro foi a Men as Peacemakers, cuja missão é ensinar alternativas não violentas a homens e garotos, e que a violência era inaceitável.

Procurei por Heisler com uma questão honesta: Como criar meu filho para ser um homem preocupado em fazer sua parte para mudar o ambiente social que subjuga as mulheres?

A entidade tenta mudar esse ambiente incorporando exemplos e mentores por toda a comunidade. Por exemplo, O Festeiro Exemplar, um programa coordenado com a faculdade College of St. Scholastica, tenta reformular a cultura de festas na América para uma que é segura e equitativa às mulheres.
Eles fazem isso colocando mentores nas escolas, colégios, organizações juvenis, e outros lugares onde jovens podem ter uma conversa honesta sobre sexualidade e festas. E acontece que a linguagem e a conversa formam as atitudes de homens jovens em relação às mulheres.

Mencionei uma anedota da edição deste ano da Exposição de Entretenimento Eletrônico. Durante a apresentação da Microsoft do novo Xbox One, o jogador masculino e MC deu um beatdown virtual na jogadora antes da audiência ao vivo, dizendo a ela: “Apenas deixe acontecer. Terminará rapidinho.”

Em uma cultura em que o discurso de dominação e abuso são socialmente permitidos (videogames), essa é a linguagem dominante – e a linguagem que usamos importa. A língua pode tanto capacitar quanto objetivar. (Compare os resultados de “college women” e “college girls” na busca do Google Imagens, e aí você verá o meu ponto).

A Iniciativa dos Campeões, outro programa do Homens como Pacificadores, reúne atletas universitários com jovens e trabalha diretamente com as associações esportistas e treinadores para garantir que a prevenção da violência contra mulheres faça parte de suas missões.

Desde que a tentativa de estupro de Steubenville focou na cultura dos esportes e na violência sexual, Heisler acredita que esse ambiente é crítico. Ele usa o caso de Steubenville em um exercício de imaginação em que pede aos meninos para “pensar naquela jovem de Steubenville como um garotinho” e considerar como seu ambiente se parece: “De alguma forma aquelas crianças aprenderam o que seu senso de humor era e como aquela mulher era apenas um objeto de prazer para os homens – algo que não importa, no qual eles podem urinar, do qual eles podem usar, fazer o que eles quisessem e não se importar. Essa não foi a forma como nasceram.”

Então, talvez os homens são a pior coisa que já aconteceu para as mulheres, mas nós não nascemos assim. Nós aprendemos isso. Mesmo bem intencionados, jovens responsáveis são capazes de tomar decisões terríveis se são encorajados, preparados, ensinados a fazer o contrário.

Então, perguntei a Heisler diretamente: Você está falando com um recém papai. O que é mais importante, diga um conselho fundamental que você pode me dar para que eu tenha certeza de que as crianças que estou criando não serão um problema aos direitos humanos?

Sua resposta? Crie um ambiente inteiramente novo para o rapaz:
“Novos pais têm a oportunidade e responsabilidade de pensar proativamente em como moldar e providenciar um novo ambiente para uma criança, um que irá definir os papéis e expectativas de igualdade, dignidade e respeito entre homens e mulheres.”

Isso significa não só ser um exemplo em como tratamos as mulheres, as parceiras e as desconhecidas em público, mas também em o que achamos sobre o nosso lar e os lugares que frequentamos.

“Nós estamos tentando criar um mundo em que pais – homens – estejam dando um passo adiante e pensando de verdade sobre como criarão um novo ambiente que promova igualdade de gêneros e respeito a mulheres.” Heisler me disse. “Nós temos uma corrente nos puxando para a direção contrária. Exige muito esforço para criarmos um ambiente que influencie nossos jovens.”

 

Mudando a corrente

Uns dias antes, tomei uma cerveja com Todd Bratulich e Luke Freeman. Depois de toda a pesquisa sobre violência e dominação, eu queria me refrescar. Todd é um jovem pastor na Primeira Aliança (First Covenant), uma igreja comunitária urbana em Minneapolis; Luke, um professor de ensino médio. E mais importante: assim como eu, eles têm filhos pequenos.

Conversamos sobre como sermos bons homens que amam suas esposas, seus familiares e seus amigos, e como queríamos criar um ambiente agradável para nossos filhos crescerem. Nós todos nos sentimos bem por nos comprometermos com essas questões, pensando que estamos fazendo a nossa parte – nós não fazíamos parte da cultura de violência contra mulher.

E então, sentindo a nossa autossatisfação, Luke disse: “Nos apunhalamos pelas costas porque criamos muitas expectativas para nós mesmos, apenas vamos seguir em frente e aproveitar o nosso privilégio.”

E percebi, não tinha feito nem um pouco a minha parte. Não ainda. Tratar minha esposa com amor e gentileza é vital, claro. Mas também é o mínimo.

Nós devemos ser ativos, criativos, cheios de propostas para estender esse comportamento em todo momento de nossas vidas se queremos ser pacificadores, devemos nadar contra a corrente e criar o espaço necessário para criarmos nossos filhos com empatia e compaixão.

Nós três levantamos nossos copos para brindar o desafio, e voltamos para casa para ver nossos filhos.

sábado, 12 de outubro de 2013

Desacatei policial que me chamou de gostosa e fui presa

PP
 
11 out 2013

“Eu estou sendo presa por desacato a autoridade porque o policial me chamou de gostosa e achou isso certo”. A cena aconteceu durante manifestação em defesa da educação no Rio de Janeiro

desacato pm protestos rio janeiro

(Reprodução , Youtube)
Maíra Kubik, em seu blog

Uma jovem está parada na rua olhando o celular. Pouco depois, vários policiais estacionam suas motos ao seu lado. Alguém fala e ela responde. Não é possível ouvir o que dizem, mas em seguida, eles decidem detê-la. “Eu estou sendo presa por desacato a autoridade porque o policial me chamou de gostosa e achou isso certo”, grita para a câmera logo ali.

Sim, ele chamou ela de gostosa e ela não gostou. Reagiu. A punição? Xilindró, lógico!
A cena aconteceu durante a manifestação de ontem em defesa da educação no Rio de Janeiro. Nela, podemos perceber, ao vivo e a cores, o resultado perverso da combinação entre autoritarismo e uma sociedade que oprime as mulheres.




Comecemos nossa curta análise pela autoridade: o Estado detém, em nossa sociedade, a prerrogativa do uso da força (eu até diria monopólio, mas acho que isso não se aplica ao Rio de Janeiro, com seu tráfico e suas milícias).
A Polícia Militar, um de seus braços armados, é responsável por “manter a ordem”, ou seja, deixar as coisas tal como elas estão, sem qualquer perturbação aos governantes e aos de cima.

Essa “missão” já seria suficiente para motivar as frequentes repressões aos protestos, em especial quando eles têm como alvo agências bancárias, representantes simbólicas da concentração do capital. Mas, soma-se a isso o fato de a nossa PM seguir com todos os seus vícios, mandos e desmandos da ditadura civil-militar, prendendo primeiro e perguntando quem é depois. E voilà: temos uma polícia que sai batendo a torto e a direito e esguichando gás de pimenta como se estivesse desinfetando baratas. Uma PM que justifica essas mesmas ações com um sonoro “fiz porque quis”.

Na situação descrita no começo do texto, porém, há um fator a mais: ela foi detida não só porque estava nos arredores do protesto, o que já demonstraria toda essa arbitrariedade da polícia, mas porque reagiu a uma situação de assédio sexual. Não aceitou ser chamada de “gostosa”.

Nossa sociedade é perpassada por uma série de relações hierárquicas desiguais: de classe, de raça/etnia, de sexualidade e, claro, de gênero. Isso quer dizer que as mulheres (e não me refiro aqui ao sexo feminino) estão em uma posição de inferioridade em relação aos homens e, pior que isso, elas são histórica e socialmente consideradas suas propriedades.

Esse sentimento de posse não é apenas exercido de maneira individual, por exemplo em um casamento, mas é também coletivo. A noção de que a mulher é um objeto perpassa o microcosmo para chegar à coletividade: servimos tanto para o trabalho doméstico “gratuito” quanto para sermos “tomadas” ou “assediadas” na rua, quando os homens não “conseguem” segurar seus impulsos sexuais.

A opressão é uma realidade cotidiana. Em pesquisa recente do Think Olga, feita com 7762 mulheres, 99,6% das entrevistadas disseram que já haviam recebido cantadas e 83% delas não gostavam disso, mas apenas 27% conseguiam reagir.

Ou seja, a garota do vídeo está entre uma minoria que consegue, mesmo diante de toda a desigualdade que vivemos, não se calar. E o resultado é uma punição absurda, em que o deveria ser um belo exemplo de insubordinação das mulheres transforma-se em uma lição do que não pode se repetir.

Afinal, não deveria ser o policial militar o encarcerado por assédio sexual e por abuso de autoridade?
(Em tempo: não sei o final da história da garota, conheço apenas o que vi no vídeo.)

Não seja sexista neste Dia das Crianças

Por que aceitamos na vida adulta que homens sejam chefs de cozinha, mas na infância, as panelas e tarefas domésticas cabem sempre às meninas?

 

 11/Oct/2013 às 09:27

PP

dia das crianças sexista
As meninas ficam presas num mundo monocromático de princesas cor-de-rosa e tarefas consideradas menores (Reprodução)

Ana Cláudia Bessa, Trezentos

Há mais de um ano eu fiz uma enquete num antigo blog pessoal:
Pergunta para mãe/pai de meninOs: Você deu ou daria brinquedos como bonecas, vassouras e panelinas para seus meninos?

Apenas 66 pessoas responderam e o resultado foi que 47% daria sem problemas. O restante não daria por diversos motivos, mas não daria.

Por que eu fiz esta pergunta? Porque meu filho me pediu uma boneca. Sua justificativa era que seus bonecos (homens) estavam precisando de companhia de meninas. Diante desse argumento -e eu sempre procuro ceder diante de bons argumentos-, foi impossível não dar à ele sua desejada boneca ( ele ganhou duas : uma Susi –Barbie NOT- e uma Jessie (Toy Story). Afinal, nada mais saudável do que cultivar relacionamentos entre homens e mulheres de maneira igualitária através das brincadeiras. Pelo menos, é isso que prego e acredito.

Mas talvez isso também não seja algo tão surpreendente se avaliarmos que eu dou brinquedos femininos para meus dois meninos. Não me prendo a cor ou ao gênero do brinquedo. Sendo assim, na nossa casa, não é surpresa alguma encontrar meus filhos brincando com panelinhas cor-de-rosa.

Além dessa questão, outra coisa me faz ver tudo isso com muita naturalidade e acredito plenamente que também a meu filhos: o pai deles, é um homem que faz tudo dentro de casa e usa camisa rosa: cuida dos filhos, cozinha, varre… ele não faz a menor distinção sobre o que é considerado tarefa feminina ou masculina.

Se essas brincadeiras são uma forma das crianças entenderem a sociedade e sua realidade, acredito que estamos criando meninos para serem ótimos companheiros e pais. Espero que minhas noras valorizem e nos trate muito bem…rs….

Contudo, é triste ver que quando vamos a uma loja de brinquedos, os fogões,
vassouras e eletrodomésticos de brinquedos são todos rosa ou lilases. Por que aceitamos na vida adulta que homens sejam CHEFS de cozinha, mas na infância, as panelas e tarefas domésticas cabem sempre às meninas? Na década de 70, as bonecas vinham com nomes que valorizavam a mulher submissa (afinal “Amélia é que era mulher de verdade”) e e santificavam a imagem da mãe. Aos meninos cabem os carros (como se mulher não gostasse de dirigir), as armas e junto com elas, a violência masculina banalizada desde a infância. E talvez isso explique muita coisa no comportamento violento de muitos homens jovens e adultos.

Mas aos meninos cabem também toda a gama de cores (exceto o rosa). Enquanto as meninas, ficam presas num mundo monocromático de princesas cor-de-rosa e tarefas consideradas menores. Ou ainda num mundo de consumo excessivo que cabe à Barbie oferecer em profusão com um apelo de uma beleza plástica irreal. Levando nossa sociedade a uma busca insana pela beleza perfeita e inexistente que gera doenças como bulimia, anorexia e depressão.

 

Fico pensando no que será desse mundo de princesas quando elas crescerem e virem que os homens não são príncipes encantados e também aos homens que cresceram acreditam em princesas que não existem. Será também que esta visão equivocada da realidade entre homens e mulheres incentivada na infância não é um fator determinante para essa total falta de sintonia entre os sexos gerando essa enorme dificuldade que nossa sociedade apresenta em se relacionar afetivamente?

No dia das crianças já fiquei longe dos meus filhos, num evento voltado para a discussão do incentivo ao consumo na infância. Quando recebi o convite, não pude deixar de aceitar porque estaria longe dos meus filhos no dia das crianças. Essa data é uma data comercial que ficou famosa nos anos 60 quando divulgada por uma indústria de brinquedos. A fábrica acertou na estratégia e hoje o dia das crianças e uma data exclusivamente comercial e aceita por todos como um dia de ganhar presentes.

Eu fiquei longe dos meus filhos neste dia, ele receberam brinquedos simples e não comemoramos nada. E no que pudermos oferecer a eles, vamos mostrar que o mundo é um lugar de homens e mulheres que partilham todas as suas tarefas de forma igualitária, com respeito e companheirismo, sempre. E gostaria que o dia das crianças fosse um dia de brincar de qualquer coisa. Mas não um dia de mostrar que só é feliz quem ganha presentes mirabolantes (e sexistas).

Parece piegas dizer mas mais importante do que ser feliz por causa de um brinquedo, é ser feliz sem ele. É aprender que a felicidade não depende de uma fator externo. Agora, chegou o Natal. Hora de mostrar que a felicidade deve estar dentro de nós para que possamos enfrentar com serenidade as dificuldades e limitações que a vida nos apresentará.

Isso sem remédios como a ritalina e rivotril.
Dê mais presença, mais afeto. Não deixe o presente material ser o centro das atenções. O que nos faz humanos é o afeto.

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

1º Ato das Trepadeiras acontece hoje em São Paulo

Mulheres promovem Ato das Trepadeiras contra músicas que reforçam a humilhação e a violência em suas letras

PP

 Ana Paula Galvão, Ciranda

 Imagem do vídeo “Trepadeiras”. (Artista: Emicida)

Na primeira década do século passado, os sambas saiam das regiões empobrecidas e chegavam ao salões da alta sociedade com, dentre outras, a música que proclamava  

“se essa mulher fosse minha
Apanhava uma surra já-já
Eu lhe pisava todinha
Até mesmo eu lhe dizer chega”
cantada por José Barbosa da Silva.

Na década de 30, o compositor Francisco Alves gravou o imediato sucesso “Mulher de Malandro” que pregava:  

“Mulher de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha
A ele tem amizade
Longe dele tem saudade”.

Em 40, Ismael Silva, em coautoria com Francisco Alves e Freire Júnior, gravaram a música “Amor Malandro” e deixa claro a opinião dos compositores:

”Se ele te bate é porque gosta de ti, 
pois bater em quem não se gosta eu nunca vi”.

Indo para os anos 70, pescamos a pérola de João Bosco e Adir Blac “Gol Anulado”, que diz

“Quando você gritou mengo
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar
Três anos vivendo juntos
E eu sempre disse contente
Minha preta é uma rainha
Porque não teme o batente
Se garante na cozinha
E ainda é vasco doente”.

Na década de 80, a banda Camisa de Vênus emplacou nas rádios a música “Silvia”, com o absurdo refrão

“Ôh Silvia, Piranha
Ôh Silvia, Sua Puta
Todo homem que sabe o que quer, 
pega o pau pra bater na mulher”.


Já nos anos 90, o pagode brega, na voz de Alexandre Pires divertia milhões com a música que comparava a mulher a um inseto e dizia a plenos pulmões que iria chicotear, bater com chineladas, pauladas e o que mais tivesse mais ao seu alcance na música “A Barata da Vizinha”.

Na primeira década do século 21, o forró nos dá mais um exemplo rude com a canção “Quenga”:

“Você voltou
Pra quela casa da luz vermelha
Você se deita com todo mundo
E ainda diz que me ama
Mas qualquer hora
Me da na louca
Me da na telha
Te invado a casa
Te dou porrada
Te quebro a cara
E quebro a cama.”

E em 21 de agosto último, o rapper Emicida nos ’brindou’ com a canção “Trepadeira”, em que o personagem masculino da canção proclama que sua companheira merece apanhar e morrer por envenenamento, além de sua absoluta descartabilidade após o ato sexual, numa composição cheia de apologia à violência social, física e psicológica da mulher, impondo padrões morais e estéticos e cerceando sua liberdade, cujo o auge da promoção misoginia está na rima:

“merece era uma surra de espada-de-são-jorge 
e um chá de comigo-ninguém-pode“.


CHEGA!!!!
Queremos, a partir do 1º ATO DAS TREPADEIRAS, desautorizar qualquer um a dançar, a sorrir cinicamente, a se divertir e, muito menos, a ganhar dinheiro às custas de hematomas, dores, humilhações diárias e mortes que chegam ao endêmico número de UMA MULHER AGREDIDA A CADA 12 SEGUNDOS, só no Brasil.

Trata-se de um profunda mudança cultural da qual não podemos mais nos furtar em promover. Não é um problema do RAP, não é um problema do samba, não é problema do pagode, do funk, do sertanejo, nem do rock e nem do POP, é um problema da sociedade e, sobretudo, de TODAS as mulheres.

Não queremos mais o eterno papel de vítimas que nos enfiam goela e ouvidos abaixo!

Somos guerreiras! Somos trabalhadoras e se “a rua é nóis”, é bom que fique bem claro que “100% da rua foi a mulher que pariu!”.

#1atodastrepadeiras #femicidasnaopassarao #trepadeirasnaocalarao


Dia 10.09 – terça-feira – às 20h30 – na Rua Paes Leme, em frente ao SESC Pinheiros!

Menina de 8 anos morre em lua de mel com marido de 40

PP

Jovem foi vendida pelo padrasto por cerca de R$ 6 mil a um saudita. Segundo os médicos, a menina morreu com ferimentos internos no útero.


Uma criança de oito anos morreu no último sábado (07/09) no Iêmen após a lua de mel com o marido de 40 anos, informaram nesta segunda-feira (09/09) as agências dpa e AFP. Segundo os médicos, a menina morreu com ferimentos internos no útero.

A jovem, chamada Rawan, foi vendida pelo padrasto para um saudita por cerca de R$ 6 mil, segundo o jornal alemão Der Tagesspiegel. A morte aconteceu na área tribal de Hardh, na fronteira com a Arábia Saudita.

Ativistas de direitos humanos pressionam para que o saudita e a família da menina sejam responsabilizados pela morte.

“Após este caso horrível, repetimos nossa exigência para uma lei que restrinja o casamento para maiores de 18 anos”, afirmou um membro do Centro Iemenita de Direitos Humanos para a dpa.


Em 2010, outra garota de 13 anos já havia morrido com sangramentos internos cinco dias após o casamento (forçado), de acordo com outra organização de direitos humanos que atua na região.

Há quatro anos, uma lei tentou colocar a idade mínima de 17 anos para o casamento. No entanto, ela foi rejeitada por parlamentares conservadores, que a classificaram de “não islâmica”.

Opera Mundi, com agências

  Atualizando

  11/Sep/2013 às 15:29

Agência reafirma morte de menina de 8 anos em lua de mel

Apuração da agência de notícias Reuters indica que chefes tribais tentaram esconder a história. Menina casada com homem de 40 anos morreu de hemorragia causada por rompimento uterino

menina 8 anos lua mel
Autoridades do Iêmen negam morte de menina, enquanto veículos de imprensa reafirmam veracidade da história (Imagem – Ilustração)
 
A agência de notícias Reuters reafirmou nesta terça-feira (10/09) a história de uma menina de oito anos que teria morrido no Iêmen durante a lua de mel com seu marido de 40 anos, apesar de autoridades do país terem negado a morte ontem, segundo o Huffington Post e o jornal Gulf News.

O caso, que chamou atenção em todo o mundo, teria ocorrido no último sábado (07), mas veio a público na segunda-feira (09), sendo reproduzido por publicações como o jornal espanhol El País, o Daily Mail e o alemão Der Tagersspiegel. A criança, segundo Mohammad Radman, o jornalista que apurou a matéria, sofreu ferimentos internos no útero.

Arwa Othman, ativista pelos direitos humanos no Iêmen, disse à Reuters que a menina, conhecida apenas como Rawan, se casou com um homem de 40 anos na última semana, na cidade de Meedi. Segundo ela, “na noite do casamento e após a relação sexual, a criança teve hemorragia e rompimento uterino, que causaram sua morte. Eles a levaram a uma clínica, mas os médicos não puderam salvá-la”.

Othman afirmou também que as autoridades não tomaram qualquer ação contra a família ou o marido da menina. Dois habitantes de Meedi, consultados pela Reuters, confirmaram o incidente e disseram que chefes tribais locais haviam tentado acobertar a história quando foi publicada pela primeira vez, inclusive ameaçando um jornalista para que não apurasse os fatos.

Casamentos envolvendo menores de idade são comuns no Iêmen, apesar de protestos de instituições como a ONU e o Human Rights Watch. Em 2010, uma menina de 13 anos também morreu com ferimentos internos após ter sido forçada a se casar, de acordo com uma organização de direitos humanos que atua na região.

Discussões sobre o assunto foram postas de lado pela turbulência política que seguiu os protestos de 2011 contra o presidente Ali Abdullah Saleh e que levaram à sua deposição do governo.

com Opera Mundi

 

 

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